quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Off topic - reclamando

Eu disse que falaria daqui de onde estou, que é uma cidade chamada Camp Perin, mas antes vou ser bastante fútil e fresca e reclamar, que é o que eu sei fazer de melhor.

Eu cheguei aqui sexta-feira passada, e desde então não tinha tomado um banho decente até hoje. Nem vou falar da água fria, porque aí né? Mas pensa só, a cidadã passa o dia no calor escaldante que faz aqui (eu não sei dizer a temperatura, mas deve ser algo perto dos 40°C), trabalhando no sol, chego na minha humilde residência local e não tem água no chuveiro. Isso mesmo crianças, sem água, nem umas gotinhas como estava acontecendo nos outros dias. Quer dizer, ontem eu dormi suja e acordei limpa, porque banho que é bom não rolou.

Daí que hoje, fui lá, liguei o chuveiro e voilá, água saindo numa quantidade suficiente pra eu lavar o cabelo – coisa que não fazia desde quinta-feira passada, pela insuficiência de água – e de repente, não mais que de repente, água morna, ali, no chuveiro que eu amaldiçoei tanto nestes dias. Só de raiva demorei meia hora no banho, pra aproveitar, porque sabe deus quando é que isso vai acontecer de novo. É foda ficar sem tomar banho nesse calor infernal que faz aqui. Já estava até preparando meu biquíni pra ir ali no canal, feito em 1700 e lá vai pedrada pelos franceses, tomar banho. Porque sem banho não rola.

Outra bizarrice: estou num hotel que foi todo alugado pela empresa que eu trabalho. Daí tem uns horários fixos para tomar café da manhã, almoçar e jantar. E filhote, se eu perder o horário, me fodi, porque só no próximo e aqui não rola um delivery de nada, nem um lanchinho, um fandangos pra tapear a fome enquanto a próxima refeição não chega. Só que, além dos horários fixos, ainda tenho que chegar uns 5 minutos antes, porque a comida acaba. É minha gente, a comida, que já não é lá uma coisa de louco - estou quase criando pena de tanto comer frango e batata (poulle e pomme de terre, meu francês c’est tré bon) - acaba em 15 minutos. Sábado-feira eu fiquei sem jantar, fui salva por uma graviola que ganhei do moço que trabalha aqui (aliás, foi engraçado o moço, em francês para mim: ‘pur vu’ e eu sem entender só disse merci).

Mas tem uma coisa boa, que para mim é ótima: o café daqui é de beber de joelhos, agradecendo ao @OCriador. Uma delícia...

Tirando esses inconvenientes de banho, comida e falta de lugar adequado para trabalhar, aqui é um milhão de vezes melhor que Porto Príncipe. Mas amanhã eu falo da aprazível Camp Perin, seus mistérios e sua magia... hahaha

PS (que não pode faltar num post meu, hihihi): apesar de tudo eu estou gostando muito daqui. De verdade. Estou trabalhando vem uma vaca mugir na minha orelha, olho pra árvore tem um macaquinho, os passarinhos cantando, tudo bem bucólico e agradável, tirando o calor. Mas melhor esse calor do que o frio de Santiago.


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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

As ruas, o trânsito, e as disparidades

O trânsito de Porto Príncipe, é uma confusão, tem os tap tap, o transporte público daqui, que tem gente até no teto, pessoas andando nas ruas, enfim, uma confusão. O que mais me impressionou é a disparidade das coisas por aqui. Do mesmo jeito que a maioria da população vai e volta do trabalho nos tap tap ou a pé, você vê uns carros importados de ficar babando. Tem um monte de Mitsubishi, Honda, aqueles SUV americanos. Muito carro. E muito trânsito. Quando eu estava em Porto Príncipe, tinha congestionamento todos os dias, demorava quase uma hora pra chegar ao hotel que eu estava.

O lugar onde fica o hotel, aliás, nem parece que é a mesma cidade. Só tem mansão, mas mansão mesmo, daquelas que existem no Morumbi em São Paulo, sacas? E o hotel então, é uma coisa de louco. Cheio de green-go, canadense, toda sorte de europeu e muito brasileiro. Pois é, muito brasileiro trabalhando aqui, seja nas missões de ajuda humanitária, seja ganhando dinheiro mesmo com a pobreza alheia. E eu me incluo nessa parte, porque não vim até aqui fazer trabalho humanitário.

Por mais que você pense num lugar pobre o que se tem em Porto Príncipe é inimaginável pra qualquer pessoa que nunca viu o que se tem aqui. Lixo na rua, muito lixo, as pessoas caminhando, sempre caminhando, não se sabe para onde, as crianças limpando vidro, ou catando lixo na rua, pessoas mutiladas, pessoas vendo a vida passar com um olhar sem esperança. Eu já viajei por muito lugar pobre no Brasil, no sertão nordestino, na Amazônia, e nunca vi pessoas com um olhar como os dos haitianos. Mesmo as pessoas que trabalham no hotel que eu estava tem um olhar triste, apagado, sorriem por educação.

Outra coisa típica daqui: quase não existe supermercado, mesmo porque os ricos compram em Miami (existem umas 10 famílias que mandam no Haiti, o resto é todo mundo pobre, simplesmente não existe classe média), então, em quase todas as avenidas que passei, todos os dias, tem uma feira em que se vende de tudo. De fruta à diesel para os geradores. Aqui quase todo mundo que ganha um pouquinho mais de dinheiro compra um gerador, porque a energia elétrica é fornecida somente 3 horas por dia, quando tem.

Quando estava saindo de Porto Príncipe passei por um lugar que é a coisa mais bizarra que já vi na minha vida. Uma feira, no meio do lixo, gigantesca, com carro, tap tap, pessoas. Pau de Arara é luxuoso perto destes tap tap. E eu não estou brincando.

As coisas são muito caras aqui. Muito, muito caras. Uma pasta de dente, simples, daquelas pequenas, custa mais ou menos 5 dólares. Um quilo de carne, de 25 a 30 dólares. Agora pense que o salário mínimo aqui são 80 dólares e grande parte das pessoas não ganham nem isso.

Amanhã, se eu conseguir: o interior, um lugar muito melhor, mais bonito e agradável para se ficar.

PS: fico me perguntando o que é que o governo aqui fornece pra população de fato. Transporte coletivo não é público, educação não é fornecida pelo governo, saúde eu só vi postos dos Médicos Sem Fronteiras e da Cruz Vermelha. E todo o resto vem de ONG ou da ONU ou das Nações Unidas. O que faz este governo por este povo?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O Aeroporto

Pensem num aeroporto internacional, que recebe vôos dos EUA, do Canadá. Imaginou? Pois é, agora pense na rodoviária de São Tomé das Letras (é a menor que eu conheço). O Aeroporto Internacional de Port-au-Prince (o nome original de Porto Príncipe) é tipo a rodoviária de São Tomé das Letras, só que mais desorganizado. Você desce do avião naquelas escadinhas, ao ar livre e já sente o bafo quente que sopra por aqui. Se dirige ao saguão do aeroporto, seguindo o fluxo de pessoas, porque placas de informação não existem.

Aí, vai passar pela imigração. Você não fala francês? Sem problemas, desde que se vire bem no espanhol ou no inglês. Impressionante, as pessoas mal sabem ler (segundo a Wikipédia, mais 50% da população é analfabeta), mas quase todos falam os três idiomas. Não sei como, mas enfim... Depois da imigração, que é uma fila enorme e um calor desgraçado, você vai para a esteira buscar sua mala.

Aí é que fica bom: você tem que perguntar para alguém de onde sairá sua mala, já que não tem identificação. Eu esperei por 40 minutos, e já estava pensando que minha mala foi parar em La Habana, em Kingstown, em Miami ou sabe Deus e a Copa Airlines onde. Mas chegou. E agora é a hora da alfândega.

Na fila, com duas malas, uma mochila e minha bolsa, a moça da alfândega pede pra eu abrir a mala que estava com cadeado. Achei que ela fosse revirar tudo, mas não, olhou por cima, abriu minha nécessaire, e só.

Vamos saindo do aeroporto, cheguei, finalmente no Haiti. Mano! Caralho, quanta gente pedindo pra carregar a mala, te oferecendo táxi, hotel, pedindo um trocado, falando em creole, um calor do demônio, um cheiro horroroso. Queria sair correndo e pegar o avião de volta para o Panamá.

No próximo capítulo: as ruas, o trânsito, e as disparidades.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

cheguei

oi,

cheguei semi-viva, cansada mas cheguei. saí da minha casa em são paulo meia noite de segunda feira e cheguei ontem as 16 hs.

nessas primeiras 24 horas o que eu posso dizer é: faz um calor filho da puta aqui. e tem um cheiro horrível, de mendigo, não sei explicar. por causa desse cheiro, eu não consigo comer direito, fico com nojo da comida.

como eu dormi mal, e não tomei café da manhã direito, estou com enxaqueca (este post é redigido mediante doses cavalares de neosaldina e dramin) e quase vomitei no carro do diretor enquanto voltava da minha tentiva de almoço.

assim que perder a vergonha, coloco umas fotos, aqui mesmo, da belezinha que é Port au Prince.

beijo